Katya de Azevedo Araújo
Mara Horta Barbosa
Maria Isabel Ribas Pacheco
Patrícia Poerner Mazeron
Renata Viola Vives
Para Freud (1917,1925, 1931, 1933) o desejo de filho na menina surge através de uma longa série de substituições, comandadas pela inveja do pênis. O filho surge como um substituto simbólico de pênis, na equação pênis-bebê, através de diversas permutas no marco do erotismo anal: do pênis ao bebê, das fezes ao bebê ou do presente ao bebê. Estamos no campo das fantasias de desejos infantis que o adulto conserva e que o inconsciente, atemporal, mantém.
Dolto (1984) seguindo Freud, afirma que é somente após a maternidade efetiva que a sexualidade feminina está em condições de alcançar a plena resolução do conflito edípico, o luto do narcisismo fálico de seu corpo e de seu sexo, o abandono de sua posição homossexual e o investimento do seu corpo no parceiro.
Caso clínico (dados da paciente preservados)
Demonstra baixa tolerância às frustrações considerando o fato de não conseguir engravidar uma falha narcísica que “dói na alma”. Pensamos na relação com sua mãe que foi desde o início tão pobre de investimentos, já que não foi o filho homem desejado. Márcia sente que é a marca da frustração, quando não é o filho homem desejado pelo casal. Quando consegue realizar seu sonho de engravidar, enfrenta isto com muita dor e rechaço. Seu sofrimento aponta para uma fase precoce de vida, lembrando que os autores mencionam que a fertilidade e a maternidade têm sua raiz na relação ambivalente com a mãe. Percebe-se o desejo de maternidade e não por filho, segundo Aulagnier (1979) que é a tentativa de se fusionar, de uma relação narcísica e não objetal, em um retorno ao passado, à sua relação indiferenciada com a mãe.
O desejo de maternidade, como nos coloca Aulagnier (1979) significa o desprazer de estar sempre arriscando perder a criança, diferente do prazer de ter a criança. O desejo de maternidade é a negação de um desejo pela criança, é um desejo de reviver, em posição invertida, uma relação primária com a mãe, desejo que excluirá do registro dos investimentos maternos tudo o que se refere à origem da criança; ela ( a criança) não pode ser vivida como um ato de criação, mas sim como uma repetição de um momento vivido por sua própria mãe num passado longínquo e onde a expectativa seria a de retorno a um tempo que lhe era próprio.
Além do que nos coloca Freud sobre a maternidade e o desejo de filho, como uma das saídas para a sexualidade feminina e resolução da conflitiva edípica, senão a melhor forma possível de resolução na visão Freudiana, outros autores, sobretudo as psicanalistas mulheres como Ruth Mack Brunswick, Helene Deutsch, Melanie Klein e Karen Horney, enfatizam a importância da relação precoce da menina com a mãe pré-edípica.
Assim, o desejo de filho provém também da vertente homossexual da relação mãe-filha. E mais, apontam que todos os distúrbios apresentados pela mulher ligados a sua sexualidade, fertilidade e maternidade tem uma raiz importante na relação ambivalente precoce com a mãe, sobretudo ao que se refere às frustrações orais sentidas pela menina na relação com a mesma.
Segundo Soulé (1987) o fantasma mais antigo da criança (menino ou menina) é obter o poder de ter um filho, o poder da mãe. Este é um dos componentes do desejo de gravidez e não do desejo de filho. Não está ligado ao desejo de ter uma criança, mas sim ao poder “fazer” a criança, e então identificar-se com a mãe, na sua plenitude e poder absoluto. Eis aí o impacto traumático da esterilidade. O filho poderia ser conseguido pela inseminação artificial ou adoção, mas não o poder de “fazê-lo” por si mesmo. Isso parece ficar evidente no caso de Marcia, que sempre se imaginou tendo um bebê, mas sem imaginar-se casada, entretanto, quando se vê “gorda”, cheia, isso causa uma angústia tremenda e uma estranheza.
A mulher grávida reedita a relação ambivalente com a própria mãe. Helene Deutsch, citada por Langer ( 1986 ) interpreta isso como uma dupla identificação, onde a grávida pode identificar-se com o feto, revivendo sua própria vida intra-uterina, ou pode também projetar sobre ele sua própria voracidade oral infantil e desejos de comer a mãe, vivenciando assim o feto como algo que irá destruí-la por dentro. Quando o feto representa sua mãe, cuja vingança oral teme, ele é experimentado como algo angustiante e destruidor que carrega dentro de si.
Em um primeiro momento a menina quer destruir o corpo da mãe, sobretudo seu ventre e conteúdos. Num segundo tempo, a menina quer menos destruir, mas deseja sim um roubo dos conteúdos do corpo materno, o pênis do pai e bebês, guardando um filho para si. O desejo de destruir – roubar os conteúdos do corpo materno reaparece com o desejo de gravidez, com o desejo de ficar cheia e gorda. Trata-se de verificar a integridade de seu próprio interior. A prova deste desejo de destruição é dada pelo aparecimento de temores de vingança ao final de uma gravidez, quando a realização do desejo torna-se próxima. No medo de tantas mulheres de darem à luz a um bebê anormal, elas expressam o quanto imaginam terem sido monstruosas suas próprias fantasias exigentes frente à mãe. Assim, no desejo de gravidez, está também implícita uma verificação de sua integridade corporal, ameaçada pela retaliação materna.
Podemos pensar que quando Márcia não mantém a gestação, vive esse momento como um profundo fracasso, confirmando sua “falha-castração narcísica”. Duvida de sua integridade corporal, o que a remete a retaliação materna, e ao poder da própria voracidade oral.
Langer (1986) afirma que há mulheres que alcançam a maternidade de modo muito conflituado. Estas estão em conflito com sua feminilidade e expressam um predomínio do funcionamento esquizo-paranóide, onde abrigar o pênis e feto dentro de si significa um roubo à mãe e triunfar sobre ela, o que implicaria castigo e retaliação. Para fugir disto, a saída pode ser a frigidez, infertilidade ou abortamentos. Outras mulheres alcançam a maternidade de maneira menos conflituada. Nestas encontra-se um predomínio da posição depressiva, com o desejo de reparação através da própria gravidez e parto felizes. Reparam a mãe e devolvem-lhe o roubo, através de um filho sadio, e dão fé, desta maneira a própria bondade, tolerância e a própria integridade corporal.
Seguindo no caminho da sexualidade feminina nos encontramos com Maria, casada com João e querendo muito ter um filho. Há alguns anos tentam naturalmente engravidar sem sucesso. Maria deseja ter um filho com João, pois este é adotado e não tem nenhum conhecimento de sua família de origem, então se eles tivessem um filho seria uma maneira de João ter um laço de consangüinidade com alguém que convivesse com ele. Certamente este filho já viria com uma missão, dando ao pai o laço perdido e desconhecido. Quanto mais Maria deseja dar este filho a João para constituírem sua família, mais ansiosa fica e percebe que esta ansiedade pode lhe prejudicar no seu intento. Busca tratamento como mais uma forma de auxílio na realização de seu sonho. Passam-se dois anos e como não consegue engravidar pelo método natural e já tem 38 anos busca uma clínica de fertilização assistida. O casal gasta neste procedimento mais recursos que poderiam, mas consideram que valeria o investimento. Na sua primeira tentativa de reprodução assistida Maria não tem sucesso e resolvem angariar recursos para uma nova investida neste projeto de vida do casal. Fica a pergunta: qual o papel do filho no imaginário deste casal? Que mandatos ele terá, carregado de tamanho investimento? Como irá se formar a relação mãe-bebê?
Fiorini (1999) enfatiza a necessidade de diferenciar nessas situações o amor narcisista, que não reconhece o filho como objeto, nem reconhece sua alteridade, de um amor objetal que permitiria a discriminação do outro.
O filho imaginário é investido de uma grande projeção narcísica pela mãe. Ele é um outro -ela mesma -ideal, um filho cuja clivagem retirou todos os componentes agressivos. Realizará toda a megalomania infantil de sua mãe. É a ela que retorna todo o poder que ela lhe concebe. É um objeto psíquico, está dentro da cabeça e não no ventre. Ele é inatacável. É o filho de um casal mãe-filha por pensamento mágico. Aqui encontramos novamente a idealização como papel defensivo contra as pulsões destrutivas.
O filho real, o recém–nascido, evoca na mulher a problemática da castração, do conflito edipiano. A despeito de todos os seus cuidados com o bebê, é ele que decide sobre viver ou morrer. Desmente, nesta autonomia, o poder materno de fabricar um filho. O bebê não é um prolongamento seu. Agora com o feto deixando o corpo da mãe, joga-a numa posição de Mãe. Ou seja, ela arrisca ser todo o passado de sua mãe. Tornar-se tudo contra o qual outrora foi combativa. O recém-nascido, ou filho real, não vai ser mais que uma cópia decepcionante do bebê imaginário. A mãe deve então fazer um luto do filho imaginário, sob a pressão do filho real, podendo elaborar ou não arranjos patológicos.
Para Goldstein (2000) a mulher necessita realizar um duplo trabalho psíquico: castrar a mãe fálica pré-edípica, conseguindo finalmente, reconhecer a mãe como não toda e correlativamente, sustentar em si mesma os efeitos dessa operação de separação que funda a experiência subjetiva de sua própria incompletude. Quando ocorrer o parto e a necessária e crescente separação do bebê, pela ruptura da díade inicial, deve aceitar o apoio que é a presença do homem – pai, o que consolida nela efeitos psíquicos de castração simbólica.
“Como filho, esse ser é recém então um outro a ser descoberto, situação de enormes consequências estruturantes para ambos.” ( Goldstein, 2000, p. 103)
“A transmissão da vida escapa completamente ou parcialmente àqueles que a transmitem. Os pais que dão a vida são eles mesmos portadores de marcas significativas que serão transmitidas sem seus conhecimentos no mesmo estilo do sopro biológico.”(Monique Bydlowski in: Soulé, 1987)
Para concluir, podemos pensar que existem várias variáveis que colorem o chamado “ desejo de filho”, passando elas pela ordem fálica freudiana, como solução para a feminilidade; pela revivência do narcisismos dos pais; pela relação fantasmática com a mãe pré-edípica, e pelos mandatos transgeracionais. Há de se examinar minuciosamente as fantasias inconscientes envolvidas em cada caso em particular, de cada indivíduo ou casal que busca gerar natural ou artificialmente ou ainda adotar uma criança, pois estas motivações inconscientes irão definir o desenho da relação que se forma, bem como o papel que este novo ser terá no romance familiar. Só assim, temos a chance de entender e auxiliar arranjos mais saudáveis que possibilitem aos pais e ao filho que chega, atingirem a subjetividade adulta.
Bibliografia:
Aulagnier, Piera. A Violência da Interpretaçao – do Pictograma ao Enunciado. Rio de Janeiro: Imago, 1979.
Freud, S. (1917) As Transformações do Instinto exemplificadas no erostismo anal. Obras Completas.
Freud, S.(1925) Algumas Consequencias Psíquicas da Distinção Anatômica entre os sexos.
Freud, S.(1931) Sexualidade Feminina. Obras Completas.
Freud, S.(1933) Feminilidade. Obras Completas.
Glocer de Fiorini, L. Maternidade y sexualidad femenina a la luz de las nuevas técnicas reprodutivas. Revista Psicoanálisis, APA, t. LVI, n. 3, 1999.
Glocer de Fiorini, L. El deseo de hijo: de La carência a La produccion deseante. Revista Psicoanalisis, APA, t. LVIII, n. 4, 2001.
Langer, Marie. Gravidez e Parto. In: Maternidade e Sexo. Porto Alegre, Artes Medicas, 1986.
Soulé, Michel. A Dinâmica do Bebê. Porto Alegre: Artes Médicas, 1987.
Zak de Goldstein, R. Destinos de Mulher. In: Erótica –Um Estudo Psicanalítico Da Sexualidade Feminina. Porto Alegre: Criação Humana, 2000
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